
No começo desse mês, a L’Oréal foi condenada pela corte francesa por excluir "mulheres de cor" dos eventos de lançamentos dos seus produtos e da grande maioria das suas propagandas, sendo obrigada a pagar uma multa de 30 mil euros. A sua empresa de comunicação foi condenada a pagar o mesmo valor e ainda teve uma sentença de prisão de três meses decretada contra um dos seus diretores.
Em 2000, a ONG francesa SOS Racisme denunciou que um fax da empresa de comunicação contratada pela L’Oréal, recrutando garotas para um evento de divulgação dos seus produtos, estipulava que a empresa queria mulheres entre 18 e 22 anos, tamanho 38 a 42 e "BBR", iniciais que representam "bleu, blanc, rouge", as cores da bandeira francesa e código para pessoas "brancas" e de origem francesa, sem background estrangeiro.
A entidade levou as duas empresas à corte e vários depoimentos reforçaram a postura racista da gigante dos produtos de beleza.
Segundo o The Guardian, Christine Cassan, uma ex-funcionária da Districom, empresa de comunicação que trabalhava para a Garnier (subsidiária da L’Oréal), disse que a companhia solicitou recepcionistas brancas para seus eventos e quando ela apresentou algumas mulheres "de cor" sua chefe disse que "já tinham tido o suficiente de Christine e suas árabes".
Outra mulher disse que nomes que soavam estrangeiros ou fotos de mulheres que parecessem marroquinas, algerianas, da Tunísia ou outros países africanos eram eliminadas dos eventos da Garnier.
O importante não é o valor da multa ou se alguém vai cumprir sentença de prisão, mas o que interessa é o abalo que a decisão jurídica causa para a imagem da empresa em todo mundo e por ser uma punição exemplar, especialmente num país em que as tensões raciais estão em ponto de combustão.
Samuel Thomas do SOS Racisme disse ao Guardian: "Essa decisão é uma vitória enorme para todos que sofrem discriminação racial na França. Ela mostra que os interesses econômicos não podem ser colocados à frente da lei e moralidade. Empresas aqui claramente pensaram que o racismo estava favorecendo seus interesses financeiros!"
Grupos de direitos civis ingleses estão pedindo aos atores Kate Winslet e Clive Owens que reconsiderem seus contratos com a empresa, por motivos éticos.
Boicote no Brasil
Nós, brasileiros e brasileiras não temos o hábito de usar o boicote a empresas como um instrumento de protesto e transformação. Acho que pode ter a ver com nossa baixa auto-estima enquanto consumidores, não acreditamos que temos força pra mudar nada e sempre achamos que o nosso boicote não vai ter nenhum efeito - se ninguém faz, por que vamos fazer? - estamos acostumados a tudo continuar, sempre, na mesma.
Mas, acho que tá na hora da gente aprender a usar nosso poder de compra pra pressionar as empresas a manterem uma postura ética e responsável. Vocês não acham?
Quem visita o blog há tempos sabe que eu, o Origem e muitos grupos de apoio à amamentação, boicotamos a Nestlé por causa de suas práticas indiscriminadas e predatórias de promoção dos seus leites infantis, que são responsáveis pelo desmame de milhões de mães pelo mundo afora.
O boicote à Nestlé (que está completando 30 anos!) não é em vão. Essa empresa tem sido considerada uma das piores empresas do mundo, também por práticas como trabalho escravo na Costa do Marfim e propagandas anti-éticas como essa, que mostra crianças fazendo caretas e empurrando pratos com comidas saudáveis, verduras, frutas, para depois aparecer felizes e satisfeitas com o Nesquick (algo como o Nescau no Brasil).
Eu sempre boicotei apenas a Nestlé mas, agora, decidi evitar totalmente também os produtos da L’Oreal. Existem ótimos substitutos, por que comprar produtos de uma empresa que é confirmadamente racista, como essa?
ps.: Não por acaso, a Nestlé detém quase um terço das ações da L’Oreal.
Fonte: The Guardian.